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Revista GNU: Enfrentar e superar

O texto que segue é sobre câncer. E sobre o viver. Afinal, não é de hoje que pessoas diagnosticadas com a doença fazem do episódio um trampolim para estabelecer uma nova forma de relacionar-se com a vida. É o que propõe a psico-oncologia, uma área de interface entre a psicologia e a medicina que atua na assistência interdisciplinar e multidimensional ao paciente, à sua família e aos profissionais de saúde, em todas as etapas da doença.

O câncer atinge o indivíduo e também pode promover a desestruturação familiar, um valioso pilar do tratamento e da recuperação do paciente. Mas a forma como ele irá interagir nas diferentes fases da doença, como a negação, a raiva e, principalmente, a aceitação, é determinante para o prognóstico, diz a psicóloga oncológica Joice Teresinha da Silva.

Ela destaca a importância da vida associativa e da prática esportiva para prevenir e enfrentar o câncer. O paciente passa por diferentes estágios a partir da suspeita do câncer, do diagnóstico e do seu prognóstico. “A primeira reação, fruto do impacto da comunicação da má notícia, é, muitas vezes, de abandono de tudo, depressão e isolamento. É preciso trazer luz à sua consciência, para que ele passe a elaborar e ressignificar sua doença, sua condição emocional e seu stress, passando a focar, por exemplo, nas condições prazerosas em vez da dor”.

 

Valorizando a vida em sociedade

É aí que ganham relevância os clubes sociais. Quase como espaços terapêuticos, eles propiciam, pelo convívio social e pela realização de atividades físicas, a descoberta de medidas de enfrentamento, superação e busca de novos significados para a vida. “O mundo humano é de relações com os outros, a existência é compreendida por uma coexistência. O clube possibilita interação social, nos faz refletir sobre os significados da realidade vivida; isso nos fortalece. No enfrentamento ao câncer, o grupo social torna-se um espaço potencial e criativo (conexão com o ambiente interno e externo) que mantém o equilíbrio do indivíduo. Nesse sentido, o clube se torna um espaço transacional entre a pessoa e o ambiente, por oferecer opções entre o bem-estar, bem-ser e bem-viver, dando vida aos sentidos, em alto grau de satisfação”, diz Joice.

Para a psicóloga oncológica, é preciso estimular o paciente a, dentro de suas possibilidades e seguir frequentando o clube, interagindo com amigos, como parte do tratamento ou mesmo quando não há mais chances de cura na ciência para sua doença. Além disso, o estabelecimento de objetivos e metas, planejamento de atividades físicas e mudanças de estilo de vida reduzem as tensões e favorecem o fortalecimento físico e emocional. “Isso se denomina, a qualquer tempo, qualidade de vida. O convívio com outros indivíduos é um forte remédio, que vai além da farmacologia e da tecnologia, contribuindo para o tempo de sobrevida”, afirma.

 

Um sonho nunca sonhado

Aos 76 anos, a nadadora Stella Francisca Osório Bertaso vive hoje o que define como “um sonho nunca sonhado”. Em 1998, avessa à prática esportiva, ela foi diagnosticada com câncer de mama. Mulher forte, encarou a doença. “Cada um tem sua história de vida e precisa passar por ela”, define.

Após a cirurgia e o tratamento, foi orientada a se exercitar. E Stella encontrou na natação o seu espaço potencial. Nesse ambiente aquático descobriu novos prazeres e uma grande motivação, ao aceitar o convite para integrar a equipe Master do Grêmio Náutico União. “Treino duas vezes por semana, 90 minutos por dia”, conta Stella.

Não por acaso ela integra o Top 10 da Federação Internacional de Natação (FINA) nos 50m, 100m e nos 200m Costas de sua categoria e venceu nove provas no último Campeonato Brasileiro, realizado em 2017 em Curitiba (PR). Curada e motivada, ela dá a receita: “Se eu posso, tu podes!”