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A deficiência que faz crescer e vencer

Em 3 de dezembro é celebrado o Dia Internacional do Deficiente Físico, também conhecido como Dia Mundial das Pessoas com Deficiência. Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1992, a data tem como objetivos chamar a atenção da sociedade para os desafios enfrentados por esses indivíduos e  conscientizar sobre a importância de inseri-los em diferentes aspectos da vida social, política, esportiva, econômica e cultural. De acordo com a ONU, 10% da população mundial possuem algum tipo de deficiência. E, infelizmente, portadores de deficiências são comumente discriminados, o que dificulta uma vida digna e de qualidade.

O fato é que as deficiências não devem privar ninguém de ter uma vida com bem-estar. No Grêmio Náutico União, as pessoas portadoras de deficiência (PcD’s) têm seus direitos resguardados, tanto no que diz respeito à acessibilidade (rampas e elevadores de acesso, além de outras adaptações facilitadoras) como na possibilidade de trabalhar e de participar das diversas atividades oferecidas pelo Clube, como por exemplo: esportes e escolinhas esportivas.

 

A amizade, a força de vontade e a superação

As amigas Rafaela Michel Maia e Paula Nascimento Lubianca, de 15 anos, sabem bem o valor da igualdade de direitos e de oportunidades. Ambas são portadoras de deficiências físicas que limitam os movimentos dos membros e a mobilidade. No caso da Rafaela, uma mutação genética manifestou-se quando ela tinha dois anos e meio, comprometendo sua coordenação motora. Hoje, depois de anos de intensos tratamentos, Rafaela consegue se locomover sem o andador em pequenos percursos, mas sempre se apoiando nas paredes. Cognitivamente, no entanto, ela é perfeita e leva uma vida como qualquer menina da sua idade: é estudante do 1º ano do Ensino Médio no Colégio Rosário e frequenta as aulas de esgrima paralímpica no GNU. Rafaela, inclusive, foi a primeira associada PcD do União a frequentar a escolinha de esgrima, ainda com 13 anos. A mãe, Letícia Maia, conta que o entusiasmo foi tanto que a filha conseguiu convencer a amiga Paula, também PcD, a frequentar as aulas com ela. “A vida da Rafaela e da família mudou muito depois que ela começou a praticar o esporte. Ela teve um grande aumento de autoestima, pois percebeu que não era a única a enfrentar dificuldades e que era possível superá-las. Além disso, como todo esporte, a esgrima trouxe disciplina, responsabilidade, persistência, educação alimentar e capacidade de distinguir o que é ou não importante à vida dela”, relata Letícia. A mãe resume bem o sentimento da família: “É uma grande conquista e orgulho para todos nós. Não pela possibilidade de vencer uma competição, mas pelo prazer que ela tem em frequentar a escolinha e se aperfeiçoar”, avalia.

Com Paula Lubianca, a história se repete. Portadora de paralisia cerebral, ela apresenta dificuldade motora, especialmente no lado esquerdo do corpo. A deficiência foi descoberta quando ela tinha um ano de idade. A mãe, Luciane, vibrou quando Paula decidiu frequentar a escolinha de esgrima do União. “Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Ela teve um upgrade na sua autoestima e passou a se relacionar melhor socialmente. A oportunidade de conviver com outros deficientes e de ver que ela não era a única a ter que se superar foi fundamental para essa melhora. E também a excelência dos instrutores, que têm muita qualidade técnica e de ensino”, comemora a mãe. Luciane avalia que a maior dificuldade enfrentada pela filha e pelos PcD’s é a falta de acessibilidade. “No União, esse problema não existe. Há rampas, elevadores e, principalmente, a mentalidade dos professores e alunos, que praticam a inclusão, o respeito e a valorização das diferenças”, diz. A melhora no convívio de Paula com os amigos também foi notável, segundo a mãe: “Ela criou um grupo de referência insubstituível e ficou mais madura em relação à própria deficiência”.

Tanto Rafaela quanto Paula, nesses três anos de escolinha, cresceram no esporte. Rafaela conquistou medalha de prata por equipe na II Copa Brasil de Esgrima em Cadeiras de Rodas, em São Paulo, em junho de 2018.  Paula competiu em dois campeonatos nacionais (Goiânia e São Paulo) em 2017, e conquistou sua primeira medalha por equipe. Em breve, deverá disputar mais um campeonato brasileiro em São Paulo.

Alguém duvida do que essas meninas são capazes?

 

Um outro olhar para o mundo

Mas não é só na prática de esportes que está o desafio para os PcD’s. Desenvolver uma atividade profissional e competir com outras pessoas considerando a desigualdade é um esforço e uma superação a mais na vida dos portadores de deficiência.

O fisioterapeuta do GNU Mateus Pereira dos Santos, 44 anos, deficiente visual de nascença, superou muitas barreiras até conseguir se estabelecer profissionalmente. A queixa de Mateus é a mesma de Rafaela e de Paula: a falta de acessibilidade. “Durante minha faculdade e mestrado, lidei com a falta de acessibilidade. Isso dificultava a vida e às vezes desanimava, mas na medida do possível, eu ia me virando”, lembra ele.

Desde 2011, Mateus é colaborador do GNU, trabalhando três dias por semana na sede Moinhos de Vento. Nos outros dias da semana, faz atendimentos particulares. É com orgulho e entusiasmo que ele fala da sua atividade. “Amo o meu trabalho e até dizem que minha fisioterapia é diferenciada, afinal, desenvolvi muito o meu tato em função da deficiência visual. Meus olhos são as minhas mãos”, declara. “Sou ótimo em contraturas. Atendo atletas da natação, tenistas, remadores e quem mais apresentar algum comprometimento nos gestos esportivos”, resume.

Mateus faz questão de salientar o significado que teve em sua vida a oportunidade recebida do GNU: “Acho que sou o único deficiente visual que trabalha como fisioterapeuta num clube gaúcho. Acredito que tenho feito um bom trabalho e não me lembro de ter sentido nenhuma diferença de tratamento por conta da minha condição física”, diz. E, como todo bom profissional, Mateus não se acomodou: “Meu maior desafio é melhorar a qualidade do tratamento que aplico e continuar correspondendo ao padrão do União. Busco a excelência através de cursos de aperfeiçoamento”, diz.

E, contrariando a lógica excludente vivida pelos PcD’s, Mateus finaliza sua participação nessa reportagem com uma mensagem otimista: “Aqui, no União, me sinto acolhido. Me sinto parte de um mecanismo que está girando e isso me enche de orgulho”.

E a todos os unionistas também, Mateus!

 

O céu é o limite

O instrutor de musculação para atletas Valmir José Camargo dos Passos (mais conhecido como Bob), 43 anos, é deficiente visual desde bebê e também trilhou um longo caminho até conquistar seu espaço no mundo do trabalho. Bob já nasceu tendo que superar obstáculos: órfão, morou toda a infância num orfanato e não teve o devido acompanhamento médico. O que a todos parecia uma miopia era, na verdade, uma cegueira que se instalava por conta de uma contaminação pelo parasita que causa a toxoplasmose. Por falta do tratamento adequado, restaram-lhe apenas 30% de visão periférica.

Na adolescência, ele começou a sonhar com uma profissão. Naquela época, Bob já tinha paixão pelo esporte e treinava atletismo em uma universidade gaúcha. Com muito esforço, frequentou um cursinho pré-vestibular e, graças ao seu vínculo como a universidade, foi contemplado com uma bolsa de estudos integral. Foi assim que formou-se em Educação Física.

Seu primeiro emprego foi como repositor de estoque em uma distribuidora de bebidas. Mas ele queria mais. Queria trabalhar naquilo que mais gostava: o esporte. Distribuiu seu currículo em vários locais, e foi o GNU que lhe deu a grande oportunidade, em 2012. “Entrei direto na academia dos atletas como  instrutor de musculação, e lá estou até hoje”, fala ele, com orgulho. Bob cumpre seis horas diárias, de segunda a sexta-feira. Desenvolve programas de treinamento para diversos atletas, e seu desempenho não deixa a desejar. Perguntado sobre qual o segredo para conseguir desenvolver tão bem o seu ofício, mesmo com a deficiência visual, ele responde prontamente: “Não faço nada sozinho. Todos os exercícios, todos os treinos, eu faço junto com o atleta. É assim que posso sentir o efeito do exercício e orientar meu aluno com mais segurança. E mais: ao invés de fazer fichas para meus alunos, puxo pela memória e pela criatividade para criar novos treinos e exercícios”, revela ele, ressaltando que atende, por dia, cerca de 20 atletas unionistas.

Bob faz questão de dizer que, no União, não sente discriminação nem por parte dos colegas, nem por parte dos alunos, e que o Clube está preparado para acolher PcD’s. Ele construiu sua própria história e segue cheio de planos para o futuro. “Quero estudar mais, quero ser preparador físico. Como em tudo na minha vida, vou ter perseverança no meu objetivo. Pra mim, o limite é o céu. Estou subindo os degraus, e cada um me leva mais longe”, diz Bob, nos enchendo de coragem e de esperança de um amanhã melhor.20