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Equipe multidisciplinar trabalha para reduzir os impactos do isolamento prolongado

Mais de 70% dos atletas tiveram alteração no peso e o retorno ao condicionamento físico pode levar de um a quatro meses

Com a pandemia do novo coronavírus e o fechamento das sedes unionistas entre março e maio, os atletas das nove modalidades olímpicas oferecidas pelo Grêmio Náutico União (basquete, esgrima, ginástica artística, ginástica rítmica, judô, natação, tênis, vôlei e remo) foram impossibilitados de realizar suas atividades rotineiras nos locais adequados para treinamentos. A interrupção nos treinamentos requer um trabalho integrado a fim de restabelecer as condições físicas dos esportistas existentes no período pré pandemia. Serão semanas para voltar ao condicionamento anterior registrado. Mais do que nunca, as quatro frentes do Departamento Médico do Clube tiveram de atuar em conjunto para minimizar os impactos físicos, clínicos, psicológicos e nutricionais em função do período prolongado de redução de atividades.

Observou-se que 72% dos atletas tiveram alteração no peso. Além disso, soma-se a questão da motivação, já que o atleta costuma treinar sempre focando em alguma competição e o condicionamento físico. Numa escala de 0 a 5, a média da motivação dos unionistas foi de 2,9. Já quanto ao condicionamento físico, segundo os profissionais serão necessários de quatro semanas a quatro meses, dependendo da modalidade para voltar ao condicionamento físico pré pandemia. Tão logo retornaram, os esportistas foram submetidos, ainda, a testes de Covid-19. 

“Os estudos mostram que quatro semanas parado são oito ou nove semanas pra voltar ao mesmo estágio”, destaca o treinador de Natação Mirco Cervalles. “É um processo lento e gradual pois dois meses parado é muito tempo, apesar deles terem se mantido ativos fazendo preparação física, a qualidade técnica e coordenativa muda muito, então estamos colocando eles em forma gradualmente, tecnicamente também e fisicamente no que é mais específico na modalidade. Pelo meu cálculo demora de quatro a cinco meses para voltar a como estavam antes da pandemia”, projeta o treinador de Ginástica Artística Leonardo Finco.

Como funciona o trabalho da equipe do Departamento Médico do Clube

Foi elaborado um questionário online para dimensionar as mudanças de rendimento dos atletas. Com as 488 respostas obtidas, constatou-se que houve uma redução na carga de treino, tanto em número de dias quanto em horas semanais totais. “Isso causa uma diminuição da massa muscular, alterações da atividade neuromuscular, diminuição de flexibilidade e de mobilidade e alterações teciduais devido à falta de estímulos adequados para determinados tecidos”, explicou o fisioterapeuta do GNU, Tarciso dos Santos.

A redução, no entanto, não se deu somente pela troca do local de treino, inadequado para as práticas esportivas de cada modalidade. A falta de motivação, que pode afetar ainda a alimentação e o humor, foi notada em outro questionário aplicado pela equipe unionista. Com os resultados, foi possível identificar que, numa escala de 0 a 5, sendo 0 a menor nota e 5 a maior nota, os desportistas apontaram uma média de 2,9 em “motivação”.

“Assim que houve a orientação para isolamento, iniciamos imediatamente a encaminhar vídeo de exercícios para fazer em casa. Entre duas e três semanas depois, percebemos que eles não estavam motivados para continuar”, contou o técnico de judô do GNU, Rafael Garcia. A equipe técnica percebeu que somente isto não seria o suficiente para os atletas. “Conversamos com a equipe multidisciplinar e, a partir daí, conseguimos dar suporte em todas as áreas. Temos uma preocupação muito grande com a saúde dos atletas, não só com a performance”, continuou.

Para a coordenadora do Departamento Médico do GNU, Dra. Rosemary Petkowicz, as incertezas do momento em que vivemos e a falta de um objetico de curto, médio ou longo prazo, como as competições, por exemplo, são as causas da desmotivação coletiva, por isto, “as intervenções multidisciplinares feitas pela equipe de profissionais de saúde do Clube contribuem para que os atletas sigam engajados nos treinamentos”.

A importância da participação ativa dos profissionais de acordo com as demandas especificas de cada esporte foi ressaltada também pela psicóloga do esporte do Clube, Paula Pereira. “Neste momento, deixamos de ser uma equipe multidisciplinar para ser interdisciplinar. Planejamos as ações em conjunto durante as reuniões semanais. Desta forma, todos os profissionais identificam juntos quais intervenções necessárias para cada caso ou grupo analisado. É um trabalho mais eficaz e eficente”, acredita.

Acompanhamento virtual

Na psicologia, foi feita a leitura de que as fases emocionais vivenciadas durante o isolamento estão correlacionadas com as fases do luto: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação e reorganização. As fases não necessariamente seguem um padrão, mas atingiram os atletas de diferentes formas e contribuíram para que a equipe fizesse a intervenção necessária.

“Foi um choque no início. Passei por altos e baixos. Demorei um pouco pra entender a situação e me planejar a partir disso. Agora, estou no melhor momento desde que a quarentena começou. Consegui traçar novos objetivos e me adaptar à nova rotina. Todo domingo eu faço um planejamento para a semana, escrevo todas minhas metas e objetivos”, explicou a judoca Eduarda Vaz. “A equipe me ajudou muito em todas essas fases. Hoje entendo a importância de planejar uma rotina, coisa que eu nunca tinha levado a sério antes, vivia sempre no automático, nunca parava para planejar”, afirmou.

A partir das analises feitas, a equipe propôs aos atletas ao longo do isolamento exercícios de prevenção de lesões, além de questionários online de controle de saúde clínica e emocional – que verificam treino, sono, alimentação, hidratação, humor, motivação, entre outros aspectos -, acompanhamento semanal e intervenções individuais e coletivas por vídeo chamada. Todos pensando no autocuidado do atleta.

“Nós preparamos apresentações didáticas e, com isso, surgiram dúvidas específicas da quarentena. No caso da nutrição, auxiliamos os atletas na criação de novos hábitos alimentares para este momento”, contou a nutricionista do GNU, Marina Branco. A mudança dos hábitos foi ressaltada pela profissional, pois, embora os atletas tivessem a possibilidade de fazer as refeições de forma mais saudável em casa, eles também tinham acesso imediato aos alimentos na cozinha.

O questionário mostrou que 72% dos atletas tiveram alterações de peso. Sendo que 60% ganhou, em média, 2,7kg, e 12% perdeu, em média, 2,6kg. A variação de peso deixa o corpo despreparado para o retorno, possibilitando um risco maior de lesões. E por isto que, além das preocupações com as medidas de proteção do novo coronavírus, a equipe unionista defende um retorno controlado, gradual e progressivo.

Retorno gradual

“Ao voltar aos treinamentos, o atleta pode ser submetido a diversas cargas das quais o seu corpo não está mais apto a receber, o que nos mostra que o aumento abrupto das cargas e volumes de treinamento podem aumentar a probabilidade de surgirem inúmeras lesões”, afirma Tarciso dos Santos.

O retorno de um grupo restrito de atletas de cinco modalidades do Clube ocorreu após o Decreto Municipal nº 20.562 e do Decreto Estadual nº 55.240, em maio, que permitiram a abertura de centros de treinamentos e clubes. Por enquanto, o grupo é formado apenas por aqueles que estão em disputa de vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio, remarcados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para julho de 2021, e esportistas destaques nacionais. Além de 26 colaboradores, entre técnicos, preparador físico, médica e profissionais do setor operacional, responsável pela manutenção e limpeza da sede.

O Departamento Médico segue controlando cuidadosamente o retorno dos atletas e contribuindo com a tomada de decisão para estratégias que visam proporcionar para o atleta um retorno seguro.



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