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A espera do Lobinho

Relato feito pela associada Luciana Boose Pinheiro

8 de dezembro de 2018, era a Festa da Chegada do Papai Noel na sede Alto Petrópolis do Grêmio Náutico União. Associado e frequentador assíduo da Sede da Ilha do Pavão, João Victor Pinheiro Murr, com 6 anos recém completos não deu a mínima atenção aos brinquedos infláveis, à tenda do Papai Noel, ao show do Baby Shark ou às barraquinhas de pipoca e cachorro-quente, apenas tinha olhos e vontade de brincar nos brinquedos de aventura instalados no bosque perto da entrada da João Obino. Lá estavam os Escoteiros do Grupo Guia Lopes, com as brincadeiras de tirolesa e “corda bamba?”.

Quantas vezes João Victor se aventurou com as cordas? Infinitas. Até que “cutucou”o escoteiro que monitorava a tirolesa, o Chefe do Grupo Escoteiro Rober Martins, e perguntou: “Como eu faço para usar as roupas de vocês e ser um escoteiro?”- foi acolhido com outra pergunta: “Você já sabe ler e escrever?”- “Ainda não, mas vou aprender ano que vem!”- “Então, depois de aprender a ler e escrever, volte na nossa Sede da Ilha do Pavão e lá estaremos te esperando para ser Lobinho!”. Os olhos do João brilharam, nunca tínhamos, os pais, ouvido falar ou conhecido alguém que tivesse sido escoteiro em nossas vivências. Foi espontâneo dele.

Havia se passado um ano do primeiro encontro com os Escoteiros, era o final do ano de 2019, e com ele o fim do primeiro ano do Ensino Fundamental. No dia da apresentação escolar de fechamento do ano letivo, ao recolher-se para dormir, João Victor perguntou à mãe: “-Mãe, agora que já sei ler, preciso ir na Ilha contar isso para os Escoteiros! Já posso ser Lobinho!” – “Sim, filho, quando acabar o verão, vamos procurar os Escoteiros na Ilha.” E assim foi.

Fevereiro de 2020, uma linda tarde de sol e churrasco e piscina na Ilha do Pavão, ao entardecer, João Victor convidou os pais para caminhar pela ilha… Na trilha, via-se ao longe as bandeiras hasteadas, uma sala de porta aberta tinha um banner com o logotipo e o nome Grupo Guia Lopes – 2 – RS. O brilho nos olhos voltou e João Victor pediu para ir até lá e saber como fazia para ser Lobinho, agora que já sabia ler! O sábado subsequente foi seu primeiro dia de escotismo. Acolhido por todos, em especial pelas Chefes Vitória e Petra, mal acreditava que a espera de quase dois anos havia acabado. Finalmente poderia ser Lobinho!

E veio a Pandemia de COVID-19, colocando-nos todos em casa, e recolhendo o sonho de João Victor, acampar com os escoteiros, ser um deles, recolheu-se também em casa, na tela do computador, nos encontros virtuais e a imaginação de como era ser Lobinho na vida de convivência e presença física em meio à natureza. João foi resiliente, João foi paciente, João foi perseverante. A vivência única junto ao Grupo aliada aos vários encontros, iniciativas, campanhas de solidariedade, AGARS Virtual em outubro de 2020 e sobretudo, o apoio incondicional de todo o Grupo na sua caminhada e perseverança não o permitiram desistir. As barracas foram de lençóis, o pão de caçador foi assado na lareira dentro de casa na fria noite de junho, mas o sonho de dormir à beira da fogueira vendo as estrelas, de pensar em como fazer uma boa ação todo dia, tornar-se um Lobinho promessado o acompanhava em cada momento.

Havia se passado já dois anos do primeiro encontro com os Escoteiros. E veio a notícia de que o Grupo poderia se reunir presencialmente novamente em junho de 2021, foram muitos os preparativos e protocolos, reuniões, condutas adequadas, e finalmente a esperança de que sua espera estava cessando. Com a volta presencial do Grupo Escoteiro, a promessa de Lobinho, que João Victor recusou de fazer virtualmente por entender e estar determinado na presencialidade, estava muito próxima.

7 de agosto de 2021. 13h30min no Cais. Era realmente o “segundo” dia das vivências presenciais do João junto ao Grupo. O reencontro, a felicidade, a expectativa, a determinação. Dia 20 de agosto, passados dois encontros da retomada, a mensagem de voz da Chefe Kaa Vitória deixa o coração acelerado: “João, o Dani vai fazer a passagem de Lobinho a Escoteiro neste sábado, é segredo para ele, mas a Chefe Bagheera e eu queremos que tu vá de uniforme de Lobinho para fazer um teste e organizar a tua promessa.”

Nesta noite João Victor quase não dormiu, colocaria uniforme pela primeira vez, um teste! E assim foi a sua surpresa. Após a passagem do Daniel Vettori, a Chefe Kaa saiu para “passear com João” enquanto seus pais, sua avó, e os Chefes Maria Paula, Berenice, Rober e Petra dirigiam-se ao local da promessa. Quando teve sua venda retirada dos olhos pela Kaa ao final do passeio, os olhos incrédulos do Lobinho persistente mal podiam acreditar. O uniforme não somente era para a passagem do amigo Dani, o lobinho que o acolheu desde o primeiro dia, mas também para a sua promessa. A emoção tomou conta do grupo.

Segundo a Chefe Josi, nunca um lobinho esperara tanto tempo para promessar, e todos estavam empolgados e orgulhosos da longa espera resiliente e determinada do lobinho João Victor, que chorou emocionado ao receber seu lenço vermelho, com o qual dormiu agarrado aquela noite da sua redenção. A espera terminara, ele estava então recebendo outros 7 amigos novos, e assim, a alcateia do Guia Lopes completa-se e se enche de esperança de um mundo melhor, de uma pátria soberana e sobretudo, do desafio escoteiro personificado nas atitudes dos que estiveram presentes naquela cerimônia. A certeza de que um mundo melhor é possível, Melhor Possível! Vida longa ao Grupo Escoteiro Guia Lopes e ao João Victor, Lobinho Pata Tenra, em sua caminhada!

Não poderia ser qualquer Grupo Escoteiro, tinha de ser o Grupo Guia Lopes! A fé do Lobinho…

A escola em que João Victor estuda, Colégio Marista Rosário, também mantém um Grupo Escoteiro, e no início de 2019, na Feira de Ciências da Escola, lá estavam os escoteiros uniformizados oferecendo vivências às crianças. Como imaginava que todos os escoteiros vinham do mesmo Grupo, João mostrou os escoteiros para seus pais e os mesmos conversaram com a professora, comentando a história do desejo do João, o que tinha acontecido no União. Então, João perguntou à professora o que precisaria fazer para ser escoteiro na escola, afinal, era o início da espera, em abril de 2019, e a profe incentivou-o a falar com o “Marcelino”.

João saiu correndo e seus pais e a profe colocaram-se a conversar. Quando perceberam, João estava diante da estátua de São Marcelino Champagnat, as mãos em prece, olhos fechados. Incrédula, a profe foi até ele e explicou que não se tratava do São Marcelino, mas do Chefe Marcelino, que tinha o mesmo nome do padroeiro da escola. Ao final do encontro real com Marcelino, na volta para casa, João Victor disse: “Mãe, eu gostei destes escoteiros, eles até me aceitariam este ano na escola, mas vou esperar, porque quero ser escoteiro no Clube. E a espera seguiu até meados de 2020…

O desejo do avô

Quando, após a Festa do Papai Noel, João contou ao avô a história de ser escoteiro, o avô revelara ao neto que em sua infância tivera muito desejado ser Lobinho. Em Bagé, dirigia-se até a praça na qual se encontravam os escoteiros todos os sábados à tarde, sentava-se no banco e observava as atividades dos escoteiros. Nunca encorajou-se de ir perguntar como ser Lobinho, nunca pedira aos pais para fazê-lo, mas sempre simulava durante a semana, as atividades observadas de longe.

“Naquela época, a infância era livre, e com 7 anos eu andava sozinho na rua”, disse, ao ser indagado pelo João do por que sua avó Bi, a bisa, não teria ido falar com os escoteiros. O avô de João Victor sabia e acompanhava o desejo do neto desde o início, participou com João Victor das atividades da AGARS virtual de 2020, vestiu-se inclusive de bruxo, contava a ele de seu orgulho ao vê-lo tão determinado no seu sonho de Lobinho, mas infelizmente não pôde vê-lo concretizado. Foi levado pela Covid-19 em janeiro de 2021.



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